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Como me Livrei da Enxaqueca

Durante cerca de dez anos, convivi com crises freqüentes de enxaqueca. Ao longo de todo este tempo, sofri com sintomas fortes, que atrapalhavam minha rotina e prejudicavam minha qualidade de vida. Mas, para quem abençoadamente nunca sofreu com enxaqueca, pode ser difícil entender como ela pode afetar tanto as atividades e a qualidade de vida de uma pessoa. Por isso, resolvi dividir um pouco da minha experiência a respeito desta doença.

O Que é Enxaqueca

Quando alguém lê ou ouve a palavra enxaqueca, pensa logo em dor de cabeça. Hoje em dia é comum ouvir falar deste mal, ele ocupa espaço em revistas, jornais, internet e outros meios, o que significa que cada vez mais as pessoas vêm sofrendo e buscando informações e (principalmente) alívio.


A enxaqueca é causada por uma série de desequilíbrios químicos e hormonais no organismo, que podem ser gerados por hábitos pessoais e/ou predisposição genética. Estes desequilíbrios, por sua vez, desencadeiam uma série de sintomas variáveis – a dor de cabeça intensa é apenas um deles, e pode ou não surgir durante uma crise.

Em toda a minha experiência como portadora de enxaqueca, tive sempre crises com sintomas bem pesados e que não se desvaneciam com facilidade. Náuseas, vômito, tontura, pulsação e dores muito fortes nos olhos e na cabeça, intolerância a cheiros, luzes, sons, insônia, visão embaçada, falta de concentração… tudo isto me afligia em conjunto e de forma crescente quando a doença se manifestava. O sofrimento era tão grande que me sentia disposta a tentar QUALQUER COISA em busca de alívio; costumava brincar com os amigos que, se me dissessem que titica de galinha iria me curar, eu ficaria tentada a provar. Acredito que muitas pessoas se sintam da mesma forma, o que é bem perigoso: muito se fala sobre a enxaqueca, mas muita confusão ainda existe, e isto traz uma condição favorável para a propagação da desinformação. Um portador de enxaqueca mal orientado pode chegar a agravar e muito sua situação, seguindo conselhos errôneos e, na maioria das vezes, inúteis.

Vivendo COM Enxaqueca

Minhas crises nunca tiveram data certa pra acontecer nem tempo de duração definido; o período menstrual carregava uma chance maior de manifestação dos sintomas, mas isto também não era uma regra. O desespero era sempre presente, pois QUALQUER COISA podia desencadear uma crise: a ingestão de um alimento, o intervalo entre uma refeição e outra, uma surpresa (boa ou ruim), choro, um flash, uma mudança na iluminação, ter dormido muito ou pouco, um barulho, um cheiro, um movimento…

Com o tempo, fui aprendendo a reconhecer o início de uma crise e a saber que, a partir dali, qualquer passo seria inseguro: tinha medo de comer e piorar, de não comer e piorar, de tomar remédio e piorar, de andar, sentar, respirar, e assim por diante. Geralmente, piorava de qualquer jeito, e ter consciência disso era algo extremamente torturante: imagine o que é saber que você irá passar por um sofrimento MUITO grande e que há poucas chances de qualquer atitude sua conseguir amainá-lo. Só a angústia de lembrar o que viria a seguir e o fato de não saber quando tudo terminaria já era suficiente para arruinar o que quer que eu estivesse fazendo, tornando a experiência algo muito pior do que já era.

Os sintomas vinham sempre de forma crescente, até chegar a um auge; não consigo me lembrar de alguma vez em que eles tenham ‘passado’ sem que eu precisasse interromper minhas atividades e procurar um lugar escuro e silencioso para tentar suportar o sofrimento e dormir um pouco e/ou me medicar, às vezes de forma repetida. Tudo isto era muito complicado, pois nem sempre havia um remédio à mão (e nem sempre ele fazia efeito) ou um local onde eu pudesse repousar e fugir dos incômodos externos. E nessas situações, enfrentar uma crise de enxaqueca se tornava ainda mais difícil.

Vivenciei diversos tipos de situações ruins por causa da enxaqueca: já passei mal sozinha e longe de casa, sem saber como conseguiria voltar e com medo de desmaiar na rua; já perdi aulas e deixei de apresentar trabalhos; já fui aquém da minha capacidade em provas; já passei muito mal em locais de trabalho, comprometendo a minha produtividade; já deixei de ir a programas com a família e amigos; já passei mal nestes programas; já tive de interromper encontros e compromissos; já fui parar no ambulatório do shopping, depois de passar mal no banheiro e ser confundida com alguém que bebeu demais por estar desorientada de dor e não conseguir enxergar direito nem explicar muito bem o que sentia; já achei que iria morrer; já quis morrer…

Muitas vezes me privei de experiências boas ou deixei de aproveitá-las plenamente em função da dor ou do medo dela; e em outras tantas, me senti incompreendida e impotente diante de pessoas que não conseguiam acreditar que o que eu sentia era sério e real.

Procurando Uma Saída

Diante desta situação, eu quis saber o que se passava comigo e me tratar, então procurei o médico; aliás, procurei mais de um. Consultei-me com diversos profissionais, fiz dezenas de exames diferentes, fiz testes, experimentei tratamentos, me voluntariei para pesquisas, me mediquei por conta própria, enfim, fiz de tudo o que achava que podia fazer.

Em todos os lugares a que fui, recebi sempre a mesma resposta: que o que eu tinha era realmente enxaqueca, que ter enxaqueca era “comum”, que a dor surgia em função da dilatação das artérias da têmpora e que não era possível determinar o que originava essa dilatação (ou as crises) – isso parecia ser essencial. Mas existiam medicamentos que, apesar de não específicos para enxaqueca, poderiam me ajudar. Portanto, eu tinha duas opções: usar um medicamento para pressão todos os dias (tratamento preventivo, que descartei de cara) ou me medicar ao menor sinal do surgimento de uma crise, com um analgésico e antiinflamatório.

Nunca nenhum dos profissionais procurados me disse que eu poderia viver sem enxaqueca; foi me dito que ela não tem cura e que eu deveria aceitar o fato. E assim eu me medicava e tocava a vida. Mas as crises voltavam. E os medicamentos para a crise (que às vezes funcionavam e às vezes, não) perdiam efeito e tinham que ser trocados por outros que viriam a perder efeito um tempo depois.

Paralelamente a toda essa busca por auxílio profissional, eu fazia minhas próprias pesquisas, lia todo e qualquer artigo, texto ou matéria sobre enxaqueca que me caía nas mãos, conversava com pessoas que também sofriam com a doença, procurava qualquer informação que pudesse me ajudar a entender o que acontecia comigo e por quê. Ouvi e li muita bobagem, encontrei pessoas mal informadas que confundiam enxaqueca com outras doenças ou tentavam empurrar curas milagrosas e falsas, além das muitas propagandas de remédios, às vezes disfarçadas de matérias jornalísticas. Também encontrei informações sérias, que explicavam o que acontecia com o meu organismo durante uma crise, mas que não me ajudavam em nada a evitá-las. Descobri através de auto-observação que alimentos adoçados com aspartame provocavam o aparecimento dos sintomas, mas mesmo depois de abolir qualquer adoçante artificial da dieta, eu ainda continuava tendo crises.

Vivendo SEM Enxaqueca

Em meio a todas estas buscas, acabei encontrando o trabalho do médico Alexandre Feldman, de São Paulo. Fiquei impressionada, pois sua abordagem da doença era totalmente diferente de tudo o que eu já tinha visto; em seu SITE, cheio de informações, ele falava sobre hábitos de sono, alimentação, stress, hormônios, ESTILO DE VIDA. O interesse foi grande e imediato, mas confesso que, depois de tantos anos convivendo com a enxaqueca sem uma solução, eu já estava um tanto descrente de que algo pudesse mesmo funcionar. Eu não acreditava que pudesse viver livre das crises, e estava também começando a achar que nem mesmo conseguiria minimizá-las de alguma forma. Ainda assim, não pude ignorar o que estava à minha frente.

Durante um tempo, apenas acompanhei os artigos escritos pelo Dr. Feldman, mas não demorou para eu perceber que cada texto novo fazia muito mais sentido do que tudo o que eu já tinha visto ou tentado até então. Concluí que precisava saber mais e assim, acabei comprando o livro Enxaqueca – Só Tem Quem Quer, de sua autoria. Nele, acabei descobrindo o quanto os hábitos – de sono, alimentação, exercícios, entre outros – e até mesmo a postura diante da vida influenciam na manifestação dos sintomas da enxaqueca. Descobri que eu, por conta própria, poderia fazer muito para transformar a situação que vinha enfrentando há tantos anos. Parece mentira, ou melhor, parece mágica. Mas são, na verdade, os muitos anos de experiência deste médico tão querido, traduzidos numa obra clara, SÉRIA, e preciosa. E não, não havia nenhuma pegadinha, nenhum custo adicional, nenhuma fórmula secreta e milagrosa.

Tudo o que eu precisaria fazer era empregar um pouco de força de vontade e ter sempre em mente a minha vontade de melhorar – melhorar da doença, melhorar a saúde, melhorar de vida – e foi isso o que fiz. Confesso que antes de começar efetivamente a seguir as orientações do Dr. Feldman, eu tive alguns momentos de dúvida e cheguei a ponderar se tantas mudanças não seriam difíceis, até mesmo impossíveis, se não tornariam minha vida muito complicada e se me privariam de aproveitar aquilo que eu já perdia muitas vezes com a enxaqueca, como por exemplo, um programa com os amigos…  afinal, há sempre um estranhamento, um pouco de receio, quando tentamos fazer as coisas de um jeito diferente do que já estamos habituados.

Porém, a vontade de ver algum resultado foi mais forte e eu fui em frente, um dia depois do outro; e não só me vi livre das crises (desde que comecei a seguir as orientações, estou há quase um ano sem ter tido uma crise sequer de enxaqueca!), como vi muitos outros benefícios: meu humor melhorou, minha pele ficou mais bonita, assim como meus cabelos, ganhei fôlego, me vi livre de alergias e outros incômodos, perdi peso, minha disposição aumentou, estou mais alegre, independente e ativa. Sinto-me feliz e não tenho mais medo de sofrer com a enxaqueca. Não sei se posso afirmar que estou curada, pois sei que se voltar a adotar maus hábitos de vida, voltarei a ter os sintomas; mas me considero SAUDÁVEL. E isto é o mais importante. Esta experiência tem sido um sucesso desde o princípio; tantas mudanças positivas me fizeram não só deixar para trás esta doença, mas também enxergar a vida e tudo o que acontece ao meu redor de forma diferente, mais consciente. O que parecia dificílimo a princípio (e que nunca se mostrou tão difícil assim), hoje é fácil e necessário, como beber água. Não consigo mais pensar em viver de outra forma. Recomendo a todos que tenham enxaqueca ou que conheçam alguém que tem, o livro, o site, o próprio Dr. Feldman. Em outros artigos falarei mais sobre as mudanças e os benefícios que consegui; quero finalizar dizendo que é sim possível viver sem enxaqueca – basta querer.

21/09/2011 at 21:20 18 comentários

As Palavras e o Caos – Os Efeitos da Semântica na Saúde

Uma das coisas que mais me impressiona na mídia (e na indústria alimentícia, de forma geral) é a apropriação e o uso indevido de alguns nomes e termos. A palavra ‘saudável’, por exemplo, é abundante em programas de TV, sites, jornais, revistas, embalagens e, principalmente, em comerciais. Atualmente, é imperativo preocupar-se com a saúde e, assim sendo, chovem matérias, programas, dicas, produtos e afins, no intuito de direcionar o espectador/ leitor / consumidor a melhores hábitos de alimentação, prevenção a doenças, cuidados com a pele, os cabelos… nunca a saúde esteve tanto em destaque; e nunca as pessoas estiveram tão doentes.

Quanto mais doentes ficamos, quanto mais doenças ‘novas’ são anunciadas, mais nos desesperamos. Sentimos que algo deve ser feito, então ficamos atentos aos resultados de pesquisas recentes, às estatísticas, às entrevistas de especialistas no jornal. E assim, acabamos nos rendendo a tantos tutoriais de como recuperar a saúde perdida ou salvar aquela que nos resta.

Buscamos a palavra saudável. E quanto mais a buscamos, mais ela aparece. Modificamos nossos costumes de acordo com aquilo que aprendemos na mídia, afinal, é uma fonte de informação ao alcance da maioria. Adotamos o hábito de passar filtro solar diariamente, de abolir a gordura do cardápio, de substituir o açúcar por adoçante, de ingerir suplementos de vitaminas, de diminuir o consumo de sódio. Aprendemos a buscar as palavras chave (sódio! açúcar! gordura! calorias!…) nas embalagens, e a basear nossas escolhas pela presença ou ausência delas.

E aí começa a confusão. Mesmo seguindo todas as recomendações possíveis, as pessoas parecem não conseguir distinguir o que é realmente saudável do que não é. E, apesar de todas as modificações na rotina e na lista de compras, as doenças continuam surgindo e as afetando – será culpa da genética? Ou será que deixamos escapar o mais recente anúncio científico?

Adaptações

Ciente de nossas buscas e preocupações, a indústria se esforça para preencher o mercado com opções mais adequadas à manutenção de nossos interesses. Todos queremos ficar mais saudáveis, mas, ao mesmo tempo, ninguém quer abrir mão daquilo que gosta de fazer ou comer. Ouvimos no rádio que a gordura é uma coisa do mal e que devemos cortá-la do cardápio para evitar obesidade e doenças cardíacas. Aí, nos deparamos com aquele salgadinho de pacote – assado, em vez de frito – que diz na embalagem “25% menos gordura” e ficamos aliviados: não precisamos largar o que é gostoso. Não é preciso mudar a alimentação; apenas saber escolher aquilo que está de acordo com a recomendação que você procura.

Tudo isto seria fantástico, se não se tratasse de pura desinformação. A abundância de orientações que recebemos – muitas vezes contraditórias e errôneas -, em todos os sentidos, carrega consigo uma vagueza de explicações sobre sua execução (parece maluco, mas é verdade), que abre brechas para escolhas erradas. Somado a isso, temos um jogo de palavras e expressões usadas pela mídia, órgãos reguladores e pela indústria, que não fazem mais que confundir a cabeça das pessoas, e fazê-las consumir aquilo que na verdade, deveriam evitar.

Maior, Menor ou Igual

Muitas matérias exploram o tema ‘escolhas certas’ para quem quer melhorar, por exemplo, a alimentação. Ensinam como selecionar aquilo que é mais saudável dentre as opções existentes, de acordo com as últimas recomendações da medicina e da ciência. Este tipo de pensamento parece válido, mas quase sempre é, na verdade, uma barca furada. Atualmente, muitos de nós sabemos que o açúcar é um ingrediente altamente maléfico e dispensável, e mesmo aqueles que não estão tão bem informados têm ciência de que seu abuso traz conseqüências ruins; no mínimo, faz engordar. Pois bem. Pela lógica do ‘mais saudável’, podemos evitar o açúcar e diminuir calorias utilizando adoçantes. Assim, um refrigerante light é considerado “mais saudável” que a versão ‘normal’, ainda que ambos sejam bebidas igualmente vazias, totalmente artificiais e cheias de química nociva, com ligeiras variações entre os aditivos de um e outro – e que de forma alguma poderiam ser consideradas saudáveis. Um pacote de macarrão instantâneo, lotado de realçador de sabor e acrescido de ketchup industrializado torna-se “mais saudável” se você adicionar brócolis à receita (nem precisa ser orgânico, pode ser o transgênico, cultivado com agrotóxicos e congelado); os pobres brócolis que se virem pra neutralizar todas as porcarias e antinutrientes desta refeição.


O nosso salgadinho de pacote – assado em vez de frito – com 25% menos gorduras e feito de ingredientes naturais, nem por isso deixa de ser apenas uma maçaroca feita com farinha de milho refinada, óleo vegetal hidrogenado, glutamato monossódico, emulsificantes e outros aditivos. O ‘ingrediente natural’ original – o milho – foi tão manipulado e adulterado no processo de fabricação, que suas vitaminas e minerais já não estão presentes no produto final. Assim, não faz sentido colocá-lo como referência na embalagem – exceto para o mercado, que sabe que a expressão INGREDIENTES NATURAIS vai atrair e confundir muita gente que está tentando encontrar qualidade em seus alimentos.

Orgânico, light, natural, integral, zero… estas e muitas outras palavras e expressões se tornaram comuns em nosso cotidiano, pois englobam coisas que aprendemos a entender como saudáveis. Deixamos-nos conduzir por tais palavras: é muito mais fácil quando se tem um rótulo que diz que aquele produto é exatamente o que você procura; sem sal, sem gordura trans, sem adição de açúcar, com vitaminas, com agentes hidratantes que protegem dos danos causados pela química, etc. Poderíamos pensar que os produtos que consumimos estão evoluindo, mas a verdade é que a grande maioria dos produtos industrializados utiliza-se de brechas nas normas elaboradas pelos órgãos reguladores, ou mesmo da ausência de tais normas para fazer com que tenhamos esta impressão.

Depois do reconhecimento e da divulgação dos sérios malefícios causados pela gordura trans ao ser humano, rapidamente uma enorme variedade de produtos passou a apresentar versões “isentas” deste ingrediente, sem o qual muitos produtos não conseguem manter um aspecto crocante ou consistente. Milagre? Não. A Anvisa permite a utilização de diversos claims (‘0%’, ‘livre de’, ‘não contém’, etc.) aos produtos que apresentarem um total máximo de 0,2g de gorduras trans por porção. Parece pouco, mas a pegadinha é: ainda que você realmente consuma apenas uma porção do produto em questão, vai se lembrar de eliminar do cardápio qualquer outro produto igualmente ‘isento‘ desta substância? E se não há um nível seguro para o consumo dela, como é possível estabelecer este valor limite? E mais: parece honesto a você dizer que não há determinado ingrediente em um produto, quando ele na realidade está lá?
‘Zero caloria’, ‘sem adição de açúcar’, ‘livre de gordura saturada’… pense em quantas vezes você já se deparou com estas e muitas outras expressões, e em como se sentiu melhor escolhendo um produto que as ostentava.

Maquiagem

Outro artifício usado para despistar o consumidor é “maquiar” os nomes dos ingredientes listados nos rótulos. Usam-se, geralmente, nomes diferentes daqueles que se tornam populares pelos alertas da ciência e da mídia: assim, gordura trans, que era também gordura vegetal hidrogenada, se tornou óleo vegetal (veja o rótulo de seu biscoito livre de gordura trans!); açúcar é sacarose; farinha refinada se apresenta como farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico (enriquecida entre muitas aspas); adoçantes artificiais ‘viram’ edulcorantes, e assim por diante. Tais nomes realmente designam os ingredientes presentes; porém, tornam mais difícil sua identificação por parte de quem vai comprar tal produto.

Então temos pães feitos com farinha branca mas que se anunciam como integrais (integral, hoje, parece ser qualquer coisa que tenha fibras – mesmo que inseridas artificialmente em um produto refinado), e fica difícil checar a veracidade daquela informação – geralmente nem conseguimos, e acabamos por aceitar o que está escrito. Quando aprendemos a fazê-lo, surge um novo truque para nos confudir.

Ler os rótulos é o mínimo que devemos fazer ao cogitar utilizar ou consumir qualquer produto; porém, parece que em pouco tempo teremos que nos graduar em química para compreendê-los, além de apresentar um mestrado em normas de regulamentação de valores de referências de substâncias e um certificado em detecção de malícia industrial. O que parece ser fácil e prático não é tão simples assim; está mais do que óbvio que a indústria se aproveita de nossa ignorância para nos iludir. Resultado: fazemos o errado, pensando estar fazendo o correto. Não conseguimos alcançar nossas intenções e depois nem sequer conseguimos compreender o porquê de tanto esforço não ter surtido efeito em nos ajudar a ter uma vida mais saudável.

A alternativa mais segura (e mais fácil, e mais saudável) é usar o bom senso, para distinguir que tipo de orientação seguir, e também para evitar a esmola excessiva;  a natureza nos fornece uma infinidade de formas de conseguir aquilo que o organismo precisa para ganhar e manter a saúde – da luz do sol aos alimentos -, e você não vê uma couve-flor orgânica da vida em embalagem estampando seu rico valor nutricional “sem adição de açúcar”.  Obter uma vida mais saudável é relativamente simples.  Mais simples que escolher que caixinha contém o cereal ‘mais saudável’.

03/09/2011 at 17:15 6 comentários

Revistas Femininas e o Mito Dos Hábitos Saudáveis

Em qualquer banca ou loja de periódicos, é muito fácil encontrar um sem número de revistas femininas para todos os gostos e bolsos. Com algumas exceções e sutis variações, a maioria delas gira em torno dos temas dieta-fitness-saúde-moda-beleza. Em todas estas, é possível encontrar dicas preciosas e exclusivas que você deve incluir em sua rotina e hábitos, se quiser ser uma mulher mais feliz, independente, bonita e principalmente, saudável. Olhando para as capas e lendo as chamadas, é fácil se perguntar: “como é que eu pude sobreviver até agora sem saber de tudo isso?” ou pensar “era isso que faltava pra eu ser feliz de vez”.  O que muita gente não se pergunta, nem pensa, é como é possível existirem tantas publicações a fim de induzir o leitor, ou melhor dizendo, a leitora, ao erro.

Pare e reflita. O que você procura ao comprá-las? Provavelmente, saber das novidades. Quem sabe, adotar uma dieta nova. Mas que novidades? Revistas femininas dedicadas a estes tipos de temas são, antes de qualquer coisa, padronizadas. Desde sempre. Comprar uma delas é como comprar qualquer outra, ainda que você pense que não. As poucas variações existentes entre elas destinam-se apenas a iludir quem acredita que existe tal diferenciação, e abocanhar mais este público em potencial. Em qualquer uma delas você pode encontrar na capa uma bela atriz ou modelo, magra, maquiada, penteada e sorridente, um exemplo perfeito de mulher bem sucedida e que se cuida. Geralmente, uma atriz em evidência, aquela que todo mundo vai querer tomar como exemplo. Mas pode também ser uma modelo anônima, e assim a revista ganha um ar de credibilidade junto a um público que se acha diferenciado. Ou ainda, uma leitora ‘vitoriosa’ que perdeu muitos quilos e que prova que é possível “vencer” seguindo as preciosas dicas da revista em questão. Tudo cheira a sucesso. As chamadas são um misto de mensagens motivadoras (“você pode!”), alertas e anúncios de novidades que até sua avó já está cansada de saber, mas que de alguma forma (estrategicamente calculada), parecem irresistíveis e prendem sua atenção. Se você pegar todas as revistas do mês, vai perceber até que as chamadas são semelhantes. Mesmo assim, é difícil resistir.

É claro que nada disso é novidade, é bem fácil para qualquer pessoa perceber estas características e é mesmo comum encontrar piadas a respeito. E, de qualquer modo, que mal há em ler revistas femininas, ainda que sejam todas iguais? E daí que a maioria delas traz chamadas parecidas? Isso acontece porque todas vão atrás do assunto mais quente e importante; se uma descoberta é assim tão fantástica e benéfica, é claro que vai sair em todas as revistas, certo? ERRADO!  As chamadas são as mesmas por um motivo muito simples: para reforçar as mensagens na cabeça da leitora. O mercado consumidor feminino é uma mina de ouro, e tais revistas ajudam e muito a impulsioná-lo. É como uma vitrine, só que você paga para ver. Isso pode não parecer um grande problema, afinal, se o dinheiro é meu, eu decido a melhor forma de gastá-lo; porém, há sim um problema quando o impulso de gastar vem de uma falsa ilusão de se estar investindo em saúde, por exemplo. E isso acontece mais do que se imagina.

Primeiramente, é preciso atentar para a forma como os assuntos são abordados em cada página. Não há uma preocupação em realmente trazer dados úteis a quem lê, apenas em fazê-los parecer úteis.  As informações são sempre superficiais, incompletas e – isso é bem importante – direcionadas. Pode ser que os caracteres ou o espaço destinado a cada tema não sejam suficientes para uma pesquisa mais densa (ou que este não seja de fato o objetivo), mas isso não impede que o assunto seja abordado de forma correta e verdadeira, o que raramente ocorre. Exemplo disso são as várias páginas dedicadas a trazer os últimos lançamentos da indústria cosmética (ou alimentícia, esportiva, etc.); ao sugerir determinado produto para uso pelas leitoras, a revista muitas vezes meramente repete aquilo que o fabricante lhe diz de benéfico em relação a tal produto, seja na embalagem ou em releases produzidos por assessorias de imprensa ou departamentos de marketing. Com isso, podemos notar que não há aí uma real opinião de quem produziu a página, mas uma omissão da mesma.

E não é só nas seções estilo ‘vitrine declarada’ que isso acontece. Quantas vezes você já viu uma matéria explicando, por exemplo, os efeitos do consumo de gorduras saturadas no organismo, e que ao final sugeria o consumo de determinada marca de margarina ou leite desnatado, com os devidos ‘benefícios’ propagados pelos fabricantes bem destacados? Não seria o caso de se desconfiar de um mero repeteco? Sim, mas existe um planejamento para que estas palavras pareçam confiáveis. No caso deste tipo de matéria, informações parcialmente verídicas e de interesse do leitor são misturadas a propaganda pura, de forma escancarada, mas que pareça sutil a olhos desatentos. Percebe o quanto isto é maldoso? A maioria das pessoas está condicionada a crer que uma sugestão rodeada por palavras de especialistas é confiável, e nem mesmo chega a se questionar se os responsáveis pela produção das matérias realmente se deram ao trabalho de checar a veracidade daquilo que publicam. Assim, são induzidas a acreditar que tal produto realmente é a melhor escolha para quem procura viver de forma saudável.

Em cada matéria, nota ou coluna, há sempre o aval e a colaboração de profissionais diversos, como dermatologistas, nutricionistas, fisioterapeutas, esteticistas, cabeleireiros, personal trainers, psicólogos, cientistas, Lucílias Dinizes e assim por diante, o que confere credibilidade ao que é dito naquela publicação. Mas nada disso garante que as informações veiculadas estão corretas. Qualquer estudante de comunicação sabe que é possível manipular informações de acordo com o interesse e/ou linha editorial da publicação, ainda que estas sejam baseadas em dados corretos ou confirmados pela ciência. Alguém se lembra DESTE comercial?

Outro aspecto a ser considerado é o estímulo à insatisfação perpétua. Deve-se sempre estar procurando emagrecer, tingir o cabelo, ganhar mais músculos, ser mais saudável, eliminar as rugas, apimentar o sexo, clarear os dentes e por aí vai. Você nunca vai estar bem o bastante, e assim, ficará tentada a experimentar as novas descobertas – que a sua revista vai logicamente te trazer em primeira mão -; aquele procedimento estético, a erva da vez, a pílula milagrosa. E ninguém parece se constranger quando as tais novas descobertas posteriormente voltam a estampar as páginas como os mais recentes vilões da saúde descobertos pelas pesquisas, mesmo tendo sido festejadas como a última maravilha da ciência, três edições atrás.

Ou mesmo a dieta do mês, elaborada por um nutricionista, para que a leitora possa emagrecer de forma ‘saudável’ – e comprando os produtos certos -, mas que, se seguida de forma contínua, debilita e traz prejuízos ao organismo. A contradição é tão grande que teve de ser assumida. Muitas revistas atualmente estampam um aviso (afinal, preocupam-se com suas leitoras – ou com um processo, vai saber): “esta dieta deve ser seguida por um período máximo de X dias”. Mais do que isso é por conta da leitora, afinal, com o suposto cardápio saudável você estará ingerindo alguns ingredientes duvidosos e deixando de ingerir muitos outros dos quais seu corpo realmente precisa (e absurdamente, querem que você acredite que isto é necessário para emagrecer). Não faz qualquer sentido; no meu entender, se uma dieta é realmente saudável, não deveria haver risco em adotá-la permanentemente. Além do mais, se não funcionar, segundo a revista, é provável que não seja a dieta certa. Na próxima edição tem outra, que se adequará mais a seu estilo de vida, personalidade, etc. – e trará produtos novos.

Por fim, já percebeu que as revistas femininas geralmente não publicam críticas? Conheço várias publicações diferentes, e nunca vi uma crítica séria (de vez em quando aparece uma reclamação de que a artista da capa já apareceu antes, mas convenhamos, isto nem conta muito). Na seção de cartas, só há elogios. Eu mesma já tentei enviar emails contestando algumas informações e nunca vi nenhum, nem mesmo um pequeno trecho, publicado. O que isso parece a você? Compromisso com a promoção da saúde ou compromisso em fazer a leitora acreditar que ela realmente pode seguir as sugestões da revista, uma vez que todo mundo que seguiu está feliz e satisfeito?

Querer ser mais saudável, feliz, aprender algo novo – ou velho – que te faça bem, nada disso é errado. Nem mesmo é preciso deixar as revistas de lado, se não quiser. Mas é preciso analisar a qualidade da informação que se recebe. De onde vem, e a que ela vem. Sua revista feminina preferida não quer realmente ajudar a fazer de você uma leitora saudável, bonita, inteligente ou vencedora. Ela está mais interessada em te estimular a ser uma pessoa que está constantemente buscando ser saudável, bonita, inteligente, vencedora, magra e tudo o mais. Dessa forma, ela poderá continuar circulando e gerando lucro: pra editora, pros anunciantes, pra equipe de colaboradores, enfim, pra todo mundo, menos você.

08/08/2011 at 20:39 5 comentários


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