Prevenção: Estão fazendo isso errado.

11/06/2013 at 17:35 3 comentários


Há cerca de um mês, a atriz Angelina Jolie declarou à imprensa ter se submetido a uma dupla mastectomia (retirada das mamas), num procedimento que durou três meses e foi concluído com o implante de próteses de silicone. A decisão de Angelina foi motivada pelo resultado de um exame genético, que apontou que ela tinha chances de desenvolver câncer de mama e de ovário. Tal atitude foi, segundo a atriz, uma medida preventiva contra o câncer.

Temos hoje o que se poderia chamar de cultura da prevenção. É frequente a veiculação de campanhas alertando sobre o cuidado com a saúde e enfatizando a importância da realização de ‘exames preventivos’ com regularidade, a fim de evitar doenças. Pela lógica, quem faz exames frequentemente está um passo a frente da doença, e tem mais chances de se curar ou até mesmo de evitá-la. Certo?

Errado. ERRADÍSSIMO. A realização de exames de rotina ou outros mais específicos não previne nem evita qualquer doença. Os exames servem, quando atingem seu objetivo, para a detecção de uma patologia ou problema. Fazer um exame de sangue não irá impedir que você tenha, por exemplo, AIDS. Mas o resultado de um exame de sangue poderá te informar que você tem ou não tem AIDS. Assim como realizar uma mamografia anual não evitará que você tenha câncer de mama, mas apenas detectará se você apresenta ou não alguma alteração em sua mama.

Da mesma forma, realizar testes e exames com frequência não aumenta suas chances de se curar de qualquer disfunção do organismo. Exames necessários, solicitados por um profissional consciente e de confiança, são uma importante ferramenta para detecção precoce de alguma doença. Mas isso só se torna um fator positivo nas chances de cura quando o doente se trata corretamente. Não adianta de nada que uma pessoa receba um diagnóstico precoce de qualquer doença – e, em alguns casos, sabemos que isso faz toda a diferença – e não aja para reestabelecer sua saúde, ou que receba um tratamento inadequado.

exames

É, de fato, muito prejudicial para todos que o significado de prevenção esteja tão deturpado e mal propagado até mesmo por quem deveria nos orientar melhor a respeito – os médicos. A prevenção a problemas de saúde engloba tudo o que nos cerca: nossos hábitos, aquilo que comemos e bebemos, a qualidade de nosso sono, que tipo de trabalho realizamos, nosso lazer, exposição ao sol, e muitos outros fatores. Parece simples demais… mas é isso mesmo. Para PREVENIR uma doença, é preciso OBTER E MANTER A SAÚDE; nenhum exame, por si só, nos tornará mais saudável. Nenhum exame, por si só, garantirá a manutenção da nossa saúde. E qualquer pessoa, médico ou não, que afirma o contrário, nada mais faz que promover a desinformação.

Terrorismo Preventivo

Devemos nos lembrar que muitos exames e procedimentos chamados preventivos são caros, invasivos, colocam o organismo em contato com substâncias muitas vezes tóxicas e nos expõem a riscos por vezes desnecessários. Não é irônico que algo tão aclamado como o “progresso” da tecnologia aplicada à medicina possa também trazer malefícios? Os
meios de comunicação festejam todo “avanço” voltado para a detecção de qualquer aspecto referente ao nosso organismo; pouco ou nada se fala sobre os ‘contras’ de tanta modernidade e minúcia: os riscos vão desde danos físicos até psicológicos; não é necessário dizer sobre o potencial negativo que isso tem em nossa saúde.

Não queremos adoecer, e a ciência nos envolve com a idéia de que é possível detectar até mesmo as chances de vir a desenvolver uma doença. O que é útil de alguma forma, mas apenas se nos conscientizarmos de que predisposição não é sentença. Se alguém possui familiares que desenvolveram diabetes, fala-se em predisposição genética; na cultura de ignorância em que vivemos hoje, isso significa, na prática, que tal pessoa se depara com esta informação e passa a esperar que, em algum momento de sua vida, o diabetes irá surgir inevitavelmente, e que a culpa é do DNA. Há uma postura de fatalismo e auto-piedade envolvendo as chamadas ‘doenças genéticas’; acontece que uma predisposição só se tornará realidade se houver um ambiente propício para tal. Alguém que tem predisposição genética ao diabetes e adota hábitos de vida saudáveis, de forma a evitar favorecer o surgimento da doença, pode nunca vir a ativar sua herança genética neste sentido.

Porém, o mais comum é encontrarmos profissionais que praticam o terrorismo preventivo e nos orientam a extirpar, da forma mais agressiva, e por vezes errônea, qualquer chance de virmos a desenvolver aquilo a que nossos gens estão predispostos – ainda que estes não tenham se manifestado e possam nunca vir a fazê-lo! -, seja com o uso de remédios ou através de procedimentos invasivos. A mídia e até mesmo o governo alimentam esta prática através de campanhas mal elaboradas. Passamos a acreditar que nossas chances de manter a saúde dependem unicamente de decisões drásticas, que podem nos trazer sofrimento e serem tão ou mais arriscadas e cheias de efeitos colaterais quanto um tratamento da doença propriamente dita.

Angelina é um exemplo claro do fatalismo científico; tendo sido informada sobre a possibilidade de desenvolver câncer, submeteu-se a três cirurgias pesadas e ao processo de recuperação das mesmas, que envolve medicamentos, dores e adaptação, mesmo estando SAUDÁVEL. Ela poderia nunca vir a desenvolver câncer, poderia ter prevenido a doença com a mudança de hábitos de vida e acompanhamento médico adequado – algo a que ela tem fácil acesso. Foi uma escolha pessoal, mas pelo uso da palavra ‘preventiva’, pode se supor que foi também uma escolha tomada com base em desinformação (e do pior tipo, o que se disfarça de informação); me parece pouco inteligente mutilar um organismo saudável para evitar uma doença, quando há outras opções. É mesmo como alguém que extrai os dentes para evitar cáries.

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3 Comentários Add your own

  • 1. Luiz Ramos  |  11/06/2013 às 18:12

    Bom, agora sim eu concordo, ainda que em partes, com você. Postar aquela piada no facebook me fez acreditar que você estava só indo na onda dos desinformados e dos troladores, uma das piores raças da internet.

    Porém, pelo que li, Angelina falou que a mãe e a avó dela sofreram com o mesmo tipo de câncer, e que isso foi um trauma na vida dela enquanto filha e da mãe (idem). Logo, essa decisão foi tomada sob o medo de que seus próprios filhos sofressem como ela diz ter sofrido (e a mãe dela idem, no caso da avó). Trauma, portanto. Caso pra psicólogo? Talvez…

    Também acredito que esse tipo de decisão é pessoal e não cabe a ninguém criticar da forma como você fez no Facebook. Pessoas retiram sisos para que eles não venham a causar problemas na dentição, coisa que geralmente acontece, não retiram?

    Além disso, acredito que esse medo de formar opinião e influenciar o mundo todo é exagero. Não vi ninguém adotando crianças só porque ela adotou 3, por exemplo…

    Responder
    • 2. Denise Rocha  |  12/06/2013 às 13:22

      Luiz, como eu mencionei no texto, Angelina fez um exame que detectou uma predisposição genética hereditária ao câncer… a atriz poderia ter tomado inúmeras atitudes mediante isto; submeter-se à mastectomia foi uma decisão pessoal e indubitavelmente radical; mas não era sua única alternativa (e, há duvidas sobre ter sido a melhor alternativa, uma vez que, mesmo extraídas as mamas, ela continua com chances, segundo dados da própria equipe que a atendeu, de desenvolver os mesmos cânceres. Ou seja, ela enfrentou procedimentos invasivos e complexos e mesmo assim pode ficar doente). A melhor alternativa é sempre preservar a saúde e integridade do organismo. Tais tipos de intervenções são uma ferramenta e podem ser utilizadas sim, porém, não devem ser apontadas como solução única. Pela forma com que o caso foi exposto pela própria Angelina, foram consideradas suas chances de adoecer, mas nada se falou sobre terem sido consideradas suas chances de permanecer saudável. É esta minha crítica.

      Não existe um “medo” de que Angelina Jolie forme opinião. A influência que as pessoas públicas exercem nas pessoas é real, é ingênuo pensar que não. A existência de assessores de imagem na equipe de cada uma delas é um exemplo muito simples disso.

      Quanto às críticas, venham elas em forma de humor ou de um artigo como este que publiquei, acredito que sejam todas válidas. É assim que formamos e expandimos nosso pensamento: aprendendo a discutir, a pesquisar, a questionar. Não deixarei de fazê-las.

      Por fim, até onde entendo, extração dos sisos ocorre quando os mesmos prejudicam a dentição ou a região bucal de alguma forma; eis aí um caso real de prevenção. Um cirurgião-dentista ou ortodontista que recomende a extração de dentes saudáveis e que não estão provocando prejuízo ao organismo é um exemplo de praticante do terrorismo preventivo.

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  • 3. Marjory Silva  |  12/06/2013 às 23:26

    Concordo com os seus argumentos Denise Rocha. Há um conceito distorcido de prevenção. Doenças poderiam ser evitadas com hábitos saudáveis, o problema é que o mercado deixaria de lucrar com os produtos industrializados e se deixaria de produzir vários remédios. Até pra uma simples dor de cabeça as pessoas estão acostumadas a se dopar com analgésicos. Por isso, prevalece a medicina curativa, com exames invasivos e de alto custo, que detecta alterações já instaladas no organismo, apenas sinalizam possibilidade de reduzir os danos daquela patologia, há tbm a exposição do organismo à radiações com os exames de imagem. Quanto ao caso da Angelina Jolie eu não tenho o que argumentar, não tenho elementos suficientes pra avaliar se foi um ato inteligente ou não, mas admirei a coragem por essa escolha tão radical.

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