As Palavras e o Caos – Os Efeitos da Semântica na Saúde

03/09/2011 at 17:15 6 comentários

Uma das coisas que mais me impressiona na mídia (e na indústria alimentícia, de forma geral) é a apropriação e o uso indevido de alguns nomes e termos. A palavra ‘saudável’, por exemplo, é abundante em programas de TV, sites, jornais, revistas, embalagens e, principalmente, em comerciais. Atualmente, é imperativo preocupar-se com a saúde e, assim sendo, chovem matérias, programas, dicas, produtos e afins, no intuito de direcionar o espectador/ leitor / consumidor a melhores hábitos de alimentação, prevenção a doenças, cuidados com a pele, os cabelos… nunca a saúde esteve tanto em destaque; e nunca as pessoas estiveram tão doentes.

Quanto mais doentes ficamos, quanto mais doenças ‘novas’ são anunciadas, mais nos desesperamos. Sentimos que algo deve ser feito, então ficamos atentos aos resultados de pesquisas recentes, às estatísticas, às entrevistas de especialistas no jornal. E assim, acabamos nos rendendo a tantos tutoriais de como recuperar a saúde perdida ou salvar aquela que nos resta.

Buscamos a palavra saudável. E quanto mais a buscamos, mais ela aparece. Modificamos nossos costumes de acordo com aquilo que aprendemos na mídia, afinal, é uma fonte de informação ao alcance da maioria. Adotamos o hábito de passar filtro solar diariamente, de abolir a gordura do cardápio, de substituir o açúcar por adoçante, de ingerir suplementos de vitaminas, de diminuir o consumo de sódio. Aprendemos a buscar as palavras chave (sódio! açúcar! gordura! calorias!…) nas embalagens, e a basear nossas escolhas pela presença ou ausência delas.

E aí começa a confusão. Mesmo seguindo todas as recomendações possíveis, as pessoas parecem não conseguir distinguir o que é realmente saudável do que não é. E, apesar de todas as modificações na rotina e na lista de compras, as doenças continuam surgindo e as afetando – será culpa da genética? Ou será que deixamos escapar o mais recente anúncio científico?

Adaptações

Ciente de nossas buscas e preocupações, a indústria se esforça para preencher o mercado com opções mais adequadas à manutenção de nossos interesses. Todos queremos ficar mais saudáveis, mas, ao mesmo tempo, ninguém quer abrir mão daquilo que gosta de fazer ou comer. Ouvimos no rádio que a gordura é uma coisa do mal e que devemos cortá-la do cardápio para evitar obesidade e doenças cardíacas. Aí, nos deparamos com aquele salgadinho de pacote – assado, em vez de frito – que diz na embalagem “25% menos gordura” e ficamos aliviados: não precisamos largar o que é gostoso. Não é preciso mudar a alimentação; apenas saber escolher aquilo que está de acordo com a recomendação que você procura.

Tudo isto seria fantástico, se não se tratasse de pura desinformação. A abundância de orientações que recebemos – muitas vezes contraditórias e errôneas -, em todos os sentidos, carrega consigo uma vagueza de explicações sobre sua execução (parece maluco, mas é verdade), que abre brechas para escolhas erradas. Somado a isso, temos um jogo de palavras e expressões usadas pela mídia, órgãos reguladores e pela indústria, que não fazem mais que confundir a cabeça das pessoas, e fazê-las consumir aquilo que na verdade, deveriam evitar.

Maior, Menor ou Igual

Muitas matérias exploram o tema ‘escolhas certas’ para quem quer melhorar, por exemplo, a alimentação. Ensinam como selecionar aquilo que é mais saudável dentre as opções existentes, de acordo com as últimas recomendações da medicina e da ciência. Este tipo de pensamento parece válido, mas quase sempre é, na verdade, uma barca furada. Atualmente, muitos de nós sabemos que o açúcar é um ingrediente altamente maléfico e dispensável, e mesmo aqueles que não estão tão bem informados têm ciência de que seu abuso traz conseqüências ruins; no mínimo, faz engordar. Pois bem. Pela lógica do ‘mais saudável’, podemos evitar o açúcar e diminuir calorias utilizando adoçantes. Assim, um refrigerante light é considerado “mais saudável” que a versão ‘normal’, ainda que ambos sejam bebidas igualmente vazias, totalmente artificiais e cheias de química nociva, com ligeiras variações entre os aditivos de um e outro – e que de forma alguma poderiam ser consideradas saudáveis. Um pacote de macarrão instantâneo, lotado de realçador de sabor e acrescido de ketchup industrializado torna-se “mais saudável” se você adicionar brócolis à receita (nem precisa ser orgânico, pode ser o transgênico, cultivado com agrotóxicos e congelado); os pobres brócolis que se virem pra neutralizar todas as porcarias e antinutrientes desta refeição.


O nosso salgadinho de pacote – assado em vez de frito – com 25% menos gorduras e feito de ingredientes naturais, nem por isso deixa de ser apenas uma maçaroca feita com farinha de milho refinada, óleo vegetal hidrogenado, glutamato monossódico, emulsificantes e outros aditivos. O ‘ingrediente natural’ original – o milho – foi tão manipulado e adulterado no processo de fabricação, que suas vitaminas e minerais já não estão presentes no produto final. Assim, não faz sentido colocá-lo como referência na embalagem – exceto para o mercado, que sabe que a expressão INGREDIENTES NATURAIS vai atrair e confundir muita gente que está tentando encontrar qualidade em seus alimentos.

Orgânico, light, natural, integral, zero… estas e muitas outras palavras e expressões se tornaram comuns em nosso cotidiano, pois englobam coisas que aprendemos a entender como saudáveis. Deixamos-nos conduzir por tais palavras: é muito mais fácil quando se tem um rótulo que diz que aquele produto é exatamente o que você procura; sem sal, sem gordura trans, sem adição de açúcar, com vitaminas, com agentes hidratantes que protegem dos danos causados pela química, etc. Poderíamos pensar que os produtos que consumimos estão evoluindo, mas a verdade é que a grande maioria dos produtos industrializados utiliza-se de brechas nas normas elaboradas pelos órgãos reguladores, ou mesmo da ausência de tais normas para fazer com que tenhamos esta impressão.

Depois do reconhecimento e da divulgação dos sérios malefícios causados pela gordura trans ao ser humano, rapidamente uma enorme variedade de produtos passou a apresentar versões “isentas” deste ingrediente, sem o qual muitos produtos não conseguem manter um aspecto crocante ou consistente. Milagre? Não. A Anvisa permite a utilização de diversos claims (‘0%’, ‘livre de’, ‘não contém’, etc.) aos produtos que apresentarem um total máximo de 0,2g de gorduras trans por porção. Parece pouco, mas a pegadinha é: ainda que você realmente consuma apenas uma porção do produto em questão, vai se lembrar de eliminar do cardápio qualquer outro produto igualmente ‘isento‘ desta substância? E se não há um nível seguro para o consumo dela, como é possível estabelecer este valor limite? E mais: parece honesto a você dizer que não há determinado ingrediente em um produto, quando ele na realidade está lá?
‘Zero caloria’, ‘sem adição de açúcar’, ‘livre de gordura saturada’… pense em quantas vezes você já se deparou com estas e muitas outras expressões, e em como se sentiu melhor escolhendo um produto que as ostentava.

Maquiagem

Outro artifício usado para despistar o consumidor é “maquiar” os nomes dos ingredientes listados nos rótulos. Usam-se, geralmente, nomes diferentes daqueles que se tornam populares pelos alertas da ciência e da mídia: assim, gordura trans, que era também gordura vegetal hidrogenada, se tornou óleo vegetal (veja o rótulo de seu biscoito livre de gordura trans!); açúcar é sacarose; farinha refinada se apresenta como farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico (enriquecida entre muitas aspas); adoçantes artificiais ‘viram’ edulcorantes, e assim por diante. Tais nomes realmente designam os ingredientes presentes; porém, tornam mais difícil sua identificação por parte de quem vai comprar tal produto.

Então temos pães feitos com farinha branca mas que se anunciam como integrais (integral, hoje, parece ser qualquer coisa que tenha fibras – mesmo que inseridas artificialmente em um produto refinado), e fica difícil checar a veracidade daquela informação – geralmente nem conseguimos, e acabamos por aceitar o que está escrito. Quando aprendemos a fazê-lo, surge um novo truque para nos confudir.

Ler os rótulos é o mínimo que devemos fazer ao cogitar utilizar ou consumir qualquer produto; porém, parece que em pouco tempo teremos que nos graduar em química para compreendê-los, além de apresentar um mestrado em normas de regulamentação de valores de referências de substâncias e um certificado em detecção de malícia industrial. O que parece ser fácil e prático não é tão simples assim; está mais do que óbvio que a indústria se aproveita de nossa ignorância para nos iludir. Resultado: fazemos o errado, pensando estar fazendo o correto. Não conseguimos alcançar nossas intenções e depois nem sequer conseguimos compreender o porquê de tanto esforço não ter surtido efeito em nos ajudar a ter uma vida mais saudável.

A alternativa mais segura (e mais fácil, e mais saudável) é usar o bom senso, para distinguir que tipo de orientação seguir, e também para evitar a esmola excessiva;  a natureza nos fornece uma infinidade de formas de conseguir aquilo que o organismo precisa para ganhar e manter a saúde – da luz do sol aos alimentos -, e você não vê uma couve-flor orgânica da vida em embalagem estampando seu rico valor nutricional “sem adição de açúcar”.  Obter uma vida mais saudável é relativamente simples.  Mais simples que escolher que caixinha contém o cereal ‘mais saudável’.

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6 Comentários Add your own

  • 1. Dr. Alexandre Feldman  |  04/09/2011 às 13:13

    A situação das gorduras trans pode ser pior que descrito acima! Segundo as “normas regulamentadoras”, gorduras são triglicerídios. Se você, indústria, mantiver as normas para os triglicerídios mas lotar seu produto industrializado de mono e diglicerídios trans, você continua “legítimo” em sua alegação de “sem gorduras trans”. Mais um exemplo do caos das palavras – do efeito da semântica na saúde!!

    …E o método pelo qual se fabricam as margarinas “sem gorduras trans” chama-se interesterificação. É agressivo para com os delicados óleos vegetais, oxidando-os. E comer óleos oxidados é uma das piores coisas que podemos fazer pela nossa saúde!

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    • 2. Denise Rocha  |  04/09/2011 às 14:05

      Tratando-se de engodos por parte da indústria, o buraco é sempre mais em baixo… no fundo do poço ainda tem um alçapão.

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  • 3. Carlos Braghini  |  05/09/2011 às 09:45

    Ótimo artigo. É como diz o Michael Pollan: coma o velho, esqueça o novo. Se seu tataravô chegasse agora em sua cozinha o que ele reconheceria como alimento? O brócolis ou aquela caixinha colorida? Sua saúde estará em melhores mãos se seguir essa lógica. E a indústria que continue tentando me seduzir com seus brilhantes departamentos de marketing. Se depender de mim, eles não levam 1 real meu para seus balanços contábeis. E quanto mais consumidores conscientes termos, melhor para a comunidade, para a cidade, para o estado, para a nação, para o mundo.

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    • 4. Denise Rocha  |  05/09/2011 às 10:15

      Pois é, Carlos! Poucas pessoas atentam para o fato de que evoluímos comendo aquilo que a natureza nos oferecia; não faz sentido pensar que conseguiríamos chegar até aqui se os alimentos naturais fossem tão hostis quanto a indústria faz parecer que são (leite tem gordura – gordura “faz mal” – então o leite não é tão bom assim. tiremos a gordura [e tudo o mais] do leite, e vc aí sim terá um alimento “bom” pra saúde. quanta baboseira…).

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  • 5. Eveline Pezzini  |  21/09/2011 às 13:50

    Me incomoda isso que você disse, que é muito complicado nesse mar de informações desencontradas a gente achar o que realmente é verdade e saber cortar o que faz mal…
    Uma coisa que eu gosto de fazer é procurar alimentos de pequenos produtores… aquele seu vizinho que tem uma fazenda e planta milho (minha mãe planta de vez em quando!) ou aquelas feirinhas que vendem no sábado o que foi coletado durante a semana… é uma boa alternativa 🙂

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  • 6. Thiago M. Witt  |  20/06/2012 às 11:07

    “If you’re concerned about your health, you should probably avoid products that make health claims. Why? Because a health claim on a food product is a strong indication it’s not really food, and food is what you want to eat”
    ― Michael Pollan, In Defense of Food: An Eater’s Manifesto

    Responder

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