Você Tem Fome de Quê? – Produtos Alimentícios e A Perversão dos Sentidos

19/08/2011 at 17:22 4 comentários

Dia desses, ao morder uma maçã verde, lembrei-me de um sabor relativamente comum em minha época de colégio: o das balas de maçã verde, aquelas massudas, mastigáveis, que grudam no dente (blergh). Achei engraçado pensar nisso, uma vez que não foi exatamente o gosto da maçã que me fez recordar a bala, mas a completa diferença entre os sabores de uma e outra. Mas estranho mesmo foi concluir em seguida que, apesar das diferenças, em minha cabeça seria possível identificar os dois sabores como “maçã verde”.

A balinha vendida na cantina da escola não possuía nenhuma porção de fruta de verdade em sua composição. Apesar disso, na embalagem constava uma ilustração de uma maçã verde e as palavras ‘maçã verde’. Adolescente, nem pensava muito a respeito, mas nunca me referi ao doce como bala SABOR maçã verde, e sim como bala DE maçã verde. Parece bobo, mas é no mínimo curioso.

‘Diversidade Contida’

Vivemos hoje cercados por todo um universo de sabores, cores e texturas. A indústria alimentícia cada vez mais investe tempo, recursos e criatividade no desenvolvimento de novos produtos e no “aprimoramento” dos já existentes: novas embalagens, cores, formatos, edições comemorativas, brindes, etc. Os produtos não se limitam a “ser eles mesmos”; muitas vezes sofrem de dupla personalidade. Pode-se facilmente encontrar em prateleiras achocolatado sabor bolo, salgadinhos de pacote sabor estrogonofe, nuggets sabor pizza, e o que mais a imaginação da indústria conseguir conceber no esforço de conquistar cada vez mais bolsos.

Um fator interessante a se observar é que, por mais que invente, mexa e remexa, a indústria alimentícia acaba muitas vezes buscando referência em alimentos naturais ou pratos tradicionais. Há motivos para isso; é mais fácil fabricar um produto que tenha gosto de algo conhecido (ainda que só pelo nome) do que inventar algo do zero, e também mais seguro, já que as pessoas geralmente são mais facilmente convencidas a comprar a bebida láctea sabor morango do que a bebida láctea sabor ‘azul bolinha’ – o sabor conhecido dá, inclusive, uma falsa impressão de que a comida não é tão artificial assim. Esta escolha de referências por parte da indústria traz, porém, uma série de problemas e contradições a quem consome estes alimentos.

Artifícios Sem Limites

Lendo a lista de ingredientes dos produtos que compramos, nos deparamos com vários nomes que, embora muitas vezes incompreensíveis (quando não vêm codificados), soam familiares a quem procura nos rótulos mais do que a data de validade e as calorias: ‘Regulador de acidez citrato de sódio, Acidulante ácido fumárico, Aromatizante, Edulcorantes, Corantes artificiais, Açúcar, Sal…’ mas, espere aí, essa gelatina não era de morango? Cadê o morango na listagem de ingredientes? Não tem. Tem aroma artificial (às vezes chamado de “idêntico ao natural”) de morango. Mas… se é idêntico, por que é que, quando eu mordo um morango, não sinto o mesmo gosto da gelatina?

Acontece que, para produzir o aditivo que imita o sabor de um alimento, isolam-se componentes químicos do aroma – um ou dois ou três -, mas os alimentos “donos” do aroma podem ter centenas de componentes químicos, não apenas aqueles dois ou três, que embora possam ser quimicamente idênticos (“idênticos ao natural”), continuam sendo apenas dois ou três, conferindo, no melhor dos casos, uma lembrança do aroma natural. Para suprir esta lacuna, a indústria lança mão de outros aditivos, como os realçadores de sabor, por exemplo. Estes fazem com que o sabor dos alimentos industrializados fique muito mais intenso, e esta é a razão porque muitas vezes os achamos tão gostosos. Toda esta mistura de produtos químicos deturpa e vicia o paladar das pessoas, enganando seus sentidos e fazendo-as consumir com prazer algo que normalmente desprezariam – ou será que, se não houvesse a adição do aroma, do corante e de tantos outros artifícios, você devoraria feliz um pacote enorme de farinha prensada com óleo vegetal?

No Princípio Era a Fome

Com isto, chegamos a outra interessante questão; está claro que existe uma grande preocupação por parte da indústria em fazer com que o alimento seja gostoso, prático, atrativo aos sentidos de diversas formas, fazendo até com que você associe o seu prato favorito, por exemplo, àquele produto X, que nada tem a ver com ele, e que nem de longe traz a seu corpo os benefícios que este prato feito com alimentos naturais poderia trazer. Por outro lado, as pessoas parecem movidas por um efeito de inércia quando vão escolher com o que irão se alimentar; compram o que vêem, sem pensar muito, sem ler rótulos, sem se dar conta de que aquilo não é de fato comida. Não há um questionamento muito grande a respeito daquilo que se busca a partir do alimento. Busca-se, entre outras coisas, saúde. Mas parece não se fazer diferenciação entre a saúde real e a prometida pelos rótulos.

Pois, ainda que muitas vezes não tenhamos consciência disso, há um sentido em escolher determinado alimento e não outro. Evolutivamente, não comemos carne, frutas e quaisquer outros alimentos apenas porque gostamos, mas porque aprendemos a identificá-los como fontes de nutrientes necessários ao funcionamento equilibrado de nosso organismo. Hoje, entretanto, nos sentimos maravilhados com tanta “variedade” de produtos disponíveis e com a preocupação da indústria em nos presentear com linhas cada vez mais completas e abrangentes; sentimo-nos fortes, importantes (nosso bolso certamente é), com poder de escolha, e nos esquecemos de atentar ao que realmente importa: a qualidade daquilo que escolhemos para comer. Por exemplo, compramos aquele hambúrguer congelado sabor picanha porque é “gostoso”, rápido de preparar – uma forma prática e moderna de consumir carne e obter as vitaminas, proteínas e tudo o mais que ela oferece. Mas não chegamos a pensar: que diabos tem nesse hambúrguer – que a embalagem diz ser de carne bovina – para que a ele seja necessário adicionar um sabor de carne? Depois de tanto processamento, ele ainda tem algum nutriente benéfico? O que esta coisa, da qual o hambúrguer é feito, irá causar em meu organismo? Ou ainda: por que é tão difícil excluir este tipo de alimento de minha dieta? Os aditivos químicos estão incluídos nas respostas de todas estas perguntas.

A Dose Faz o Veneno?

Quantas vezes nos deparamos com crianças (e mesmo adultos) que desconhecem ou rejeitam determinado alimento ‘in natura’, mas que toleram bem, até com avidez, seu sabor distorcido em alimentos processados, pobres em nutrientes? Quantas vezes não lemos sobre o aumento das taxas de obesidade, de infertilidade, surgimento de novos tipos de câncer, envelhecimento precoce, diminuição da beleza, entre muitas outras mazelas, provocadas por tantas agressões químicas com as quais precisamos lidar todos os dias? E quanto de tudo isso pode advir de aditivos de alimentos? Afinal, é importante lembrar que todas essas químicas só podem bagunçar o equilíbrio do nosso organismo.

Os aditivos são inseridos nos produtos alimentícios de acordo com índices de segurança e tolerância obtidos a partir de pesquisas, mas ainda que pudéssemos acreditar que tenham sido feitos estudos suficientes a este respeito, é preciso lembrar que cada organismo apresenta reações e níveis de tolerância variáveis; de que adianta toda a estatística do mundo dizer que aquela química não faz mal algum (ingenuidade acreditar nesse tipo de informação, em primeiro lugar), se o seu organismo tiver uma configuração genética diferente? Diante disso, não se pode concluir o que é “consumir com moderação” tais tipos de substâncias. Além disso, os aditivos não são consumidos isoladamente, mas em combinação. E as combinações são infinitas (combinações entre aditivos, combinações de aditivos com drogas, álcool, poluentes…) – e infinitas também são as possibilidades de várias destas combinações serem prejudiciais.

Comida Honesta

Minha opção frente a estes dados, e a muitos outros, é buscar uma alimentação o mais natural possível. Evito ao máximo inserir em minha dieta alimentos industrializados, pesquisando formas de produzi-los em casa, o que é divertido e prazeroso, além de confiável – e, na maioria das vezes, MUITO mais fácil e saboroso do que parece. Mas, quando não é possível, leio os rótulos e procuro entender o que eles me dizem; nem todo industrializado é vilão, mas a maioria dos produtos alimentícios se utiliza sim de propaganda enganosa – são, para mim, as comidas desonestas: prometem e alegam coisas que na verdade não podem te oferecer.

Faz diferença pesquisar, pensar e avaliar a qualidade daquilo que ingerimos, visto que o que comemos tem grande influência no funcionamento do organismo – podendo promover ou prejudicar seu equilíbrio. Nosso paladar é perfeitamente ajustável e, à medida em que vamos re-educando nossos gostos, aprendemos que alimentos verdadeiramente saudáveis são, além de nutritivos e energéticos, muito gostosos, cada um com suas peculiaridades, efeitos e sabores. Em minha opinião, nunca poderão ser substituídos por “produtos alimentícios”, cuja essência pobre é quase sempre a mesma e que precisam ser freneticamente maquiados com aditivos e outros artifícios para conseguir despertar nosso interesse.

Anúncios

Entry filed under: A Vida Como Ela É... Ou Poderia Ser.. Tags: , , , , , , , , , , , , .

Revistas Femininas e o Mito Dos Hábitos Saudáveis As Palavras e o Caos – Os Efeitos da Semântica na Saúde

4 Comentários Add your own

  • 1. Rodrigo Brasil  |  22/08/2011 às 02:48

    Parabéns, texto muito lúcido.
    Eu fiquei pensando em como é difícil achar opções aos alimentos industrializados. Lembrei de imediato em como a variedade de comidas reais, padarias, patês, pães, tira-gostos era infinita, simples e totalmente acessível, muito diferente do tanto de chips, e coxinha, empada, pão presunto que são idênticos e estão em todos os lugares aqui. É preciso construir um mundo melhor e não se deixar levar e aceitar a monotonia em que nosso mundo foi levado.

    Responder
  • 2. Eveline Pezzini  |  02/09/2011 às 12:14

    O que eu acho difícil é saber qual alimento é bom e qual é ruim; sei que os que são encontrados prontos diretamente da natureza são os melhores (frutas, verduras, legumes), mas a gente não come só isso né… a questão da substituição também é boa mas eu nunca sei se to substituindo por uma coisa boa ou por outra pior ainda…

    Responder
    • 3. Denise Rocha  |  04/09/2011 às 13:52

      Eveline, realmente é difícil, principalmente com tanta alegação enganosa por parte da indústria. Acredito sim que quando nos alimentamos de forma mais natural possível, temos menos chances de cometer algum erro. Ainda assim, sempre é bom pesquisar e procurar se informar, realmente entender e fazer questionamentos sobre aquilo que será inserido na dieta.

      Responder
  • 4. Esther  |  15/09/2011 às 09:36

    Denise

    Obrigada pela visita ao blog. Já respondi sua mensagem. Adorei sua observação sobre a sucralose x pets. No ano que vem vou colocar em prática. 😉

    Bjs

    Responder

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Twitter


%d blogueiros gostam disto: