Revistas Femininas e o Mito Dos Hábitos Saudáveis

08/08/2011 at 20:39 5 comentários

Em qualquer banca ou loja de periódicos, é muito fácil encontrar um sem número de revistas femininas para todos os gostos e bolsos. Com algumas exceções e sutis variações, a maioria delas gira em torno dos temas dieta-fitness-saúde-moda-beleza. Em todas estas, é possível encontrar dicas preciosas e exclusivas que você deve incluir em sua rotina e hábitos, se quiser ser uma mulher mais feliz, independente, bonita e principalmente, saudável. Olhando para as capas e lendo as chamadas, é fácil se perguntar: “como é que eu pude sobreviver até agora sem saber de tudo isso?” ou pensar “era isso que faltava pra eu ser feliz de vez”.  O que muita gente não se pergunta, nem pensa, é como é possível existirem tantas publicações a fim de induzir o leitor, ou melhor dizendo, a leitora, ao erro.

Pare e reflita. O que você procura ao comprá-las? Provavelmente, saber das novidades. Quem sabe, adotar uma dieta nova. Mas que novidades? Revistas femininas dedicadas a estes tipos de temas são, antes de qualquer coisa, padronizadas. Desde sempre. Comprar uma delas é como comprar qualquer outra, ainda que você pense que não. As poucas variações existentes entre elas destinam-se apenas a iludir quem acredita que existe tal diferenciação, e abocanhar mais este público em potencial. Em qualquer uma delas você pode encontrar na capa uma bela atriz ou modelo, magra, maquiada, penteada e sorridente, um exemplo perfeito de mulher bem sucedida e que se cuida. Geralmente, uma atriz em evidência, aquela que todo mundo vai querer tomar como exemplo. Mas pode também ser uma modelo anônima, e assim a revista ganha um ar de credibilidade junto a um público que se acha diferenciado. Ou ainda, uma leitora ‘vitoriosa’ que perdeu muitos quilos e que prova que é possível “vencer” seguindo as preciosas dicas da revista em questão. Tudo cheira a sucesso. As chamadas são um misto de mensagens motivadoras (“você pode!”), alertas e anúncios de novidades que até sua avó já está cansada de saber, mas que de alguma forma (estrategicamente calculada), parecem irresistíveis e prendem sua atenção. Se você pegar todas as revistas do mês, vai perceber até que as chamadas são semelhantes. Mesmo assim, é difícil resistir.

É claro que nada disso é novidade, é bem fácil para qualquer pessoa perceber estas características e é mesmo comum encontrar piadas a respeito. E, de qualquer modo, que mal há em ler revistas femininas, ainda que sejam todas iguais? E daí que a maioria delas traz chamadas parecidas? Isso acontece porque todas vão atrás do assunto mais quente e importante; se uma descoberta é assim tão fantástica e benéfica, é claro que vai sair em todas as revistas, certo? ERRADO!  As chamadas são as mesmas por um motivo muito simples: para reforçar as mensagens na cabeça da leitora. O mercado consumidor feminino é uma mina de ouro, e tais revistas ajudam e muito a impulsioná-lo. É como uma vitrine, só que você paga para ver. Isso pode não parecer um grande problema, afinal, se o dinheiro é meu, eu decido a melhor forma de gastá-lo; porém, há sim um problema quando o impulso de gastar vem de uma falsa ilusão de se estar investindo em saúde, por exemplo. E isso acontece mais do que se imagina.

Primeiramente, é preciso atentar para a forma como os assuntos são abordados em cada página. Não há uma preocupação em realmente trazer dados úteis a quem lê, apenas em fazê-los parecer úteis.  As informações são sempre superficiais, incompletas e – isso é bem importante – direcionadas. Pode ser que os caracteres ou o espaço destinado a cada tema não sejam suficientes para uma pesquisa mais densa (ou que este não seja de fato o objetivo), mas isso não impede que o assunto seja abordado de forma correta e verdadeira, o que raramente ocorre. Exemplo disso são as várias páginas dedicadas a trazer os últimos lançamentos da indústria cosmética (ou alimentícia, esportiva, etc.); ao sugerir determinado produto para uso pelas leitoras, a revista muitas vezes meramente repete aquilo que o fabricante lhe diz de benéfico em relação a tal produto, seja na embalagem ou em releases produzidos por assessorias de imprensa ou departamentos de marketing. Com isso, podemos notar que não há aí uma real opinião de quem produziu a página, mas uma omissão da mesma.

E não é só nas seções estilo ‘vitrine declarada’ que isso acontece. Quantas vezes você já viu uma matéria explicando, por exemplo, os efeitos do consumo de gorduras saturadas no organismo, e que ao final sugeria o consumo de determinada marca de margarina ou leite desnatado, com os devidos ‘benefícios’ propagados pelos fabricantes bem destacados? Não seria o caso de se desconfiar de um mero repeteco? Sim, mas existe um planejamento para que estas palavras pareçam confiáveis. No caso deste tipo de matéria, informações parcialmente verídicas e de interesse do leitor são misturadas a propaganda pura, de forma escancarada, mas que pareça sutil a olhos desatentos. Percebe o quanto isto é maldoso? A maioria das pessoas está condicionada a crer que uma sugestão rodeada por palavras de especialistas é confiável, e nem mesmo chega a se questionar se os responsáveis pela produção das matérias realmente se deram ao trabalho de checar a veracidade daquilo que publicam. Assim, são induzidas a acreditar que tal produto realmente é a melhor escolha para quem procura viver de forma saudável.

Em cada matéria, nota ou coluna, há sempre o aval e a colaboração de profissionais diversos, como dermatologistas, nutricionistas, fisioterapeutas, esteticistas, cabeleireiros, personal trainers, psicólogos, cientistas, Lucílias Dinizes e assim por diante, o que confere credibilidade ao que é dito naquela publicação. Mas nada disso garante que as informações veiculadas estão corretas. Qualquer estudante de comunicação sabe que é possível manipular informações de acordo com o interesse e/ou linha editorial da publicação, ainda que estas sejam baseadas em dados corretos ou confirmados pela ciência. Alguém se lembra DESTE comercial?

Outro aspecto a ser considerado é o estímulo à insatisfação perpétua. Deve-se sempre estar procurando emagrecer, tingir o cabelo, ganhar mais músculos, ser mais saudável, eliminar as rugas, apimentar o sexo, clarear os dentes e por aí vai. Você nunca vai estar bem o bastante, e assim, ficará tentada a experimentar as novas descobertas – que a sua revista vai logicamente te trazer em primeira mão -; aquele procedimento estético, a erva da vez, a pílula milagrosa. E ninguém parece se constranger quando as tais novas descobertas posteriormente voltam a estampar as páginas como os mais recentes vilões da saúde descobertos pelas pesquisas, mesmo tendo sido festejadas como a última maravilha da ciência, três edições atrás.

Ou mesmo a dieta do mês, elaborada por um nutricionista, para que a leitora possa emagrecer de forma ‘saudável’ – e comprando os produtos certos -, mas que, se seguida de forma contínua, debilita e traz prejuízos ao organismo. A contradição é tão grande que teve de ser assumida. Muitas revistas atualmente estampam um aviso (afinal, preocupam-se com suas leitoras – ou com um processo, vai saber): “esta dieta deve ser seguida por um período máximo de X dias”. Mais do que isso é por conta da leitora, afinal, com o suposto cardápio saudável você estará ingerindo alguns ingredientes duvidosos e deixando de ingerir muitos outros dos quais seu corpo realmente precisa (e absurdamente, querem que você acredite que isto é necessário para emagrecer). Não faz qualquer sentido; no meu entender, se uma dieta é realmente saudável, não deveria haver risco em adotá-la permanentemente. Além do mais, se não funcionar, segundo a revista, é provável que não seja a dieta certa. Na próxima edição tem outra, que se adequará mais a seu estilo de vida, personalidade, etc. – e trará produtos novos.

Por fim, já percebeu que as revistas femininas geralmente não publicam críticas? Conheço várias publicações diferentes, e nunca vi uma crítica séria (de vez em quando aparece uma reclamação de que a artista da capa já apareceu antes, mas convenhamos, isto nem conta muito). Na seção de cartas, só há elogios. Eu mesma já tentei enviar emails contestando algumas informações e nunca vi nenhum, nem mesmo um pequeno trecho, publicado. O que isso parece a você? Compromisso com a promoção da saúde ou compromisso em fazer a leitora acreditar que ela realmente pode seguir as sugestões da revista, uma vez que todo mundo que seguiu está feliz e satisfeito?

Querer ser mais saudável, feliz, aprender algo novo – ou velho – que te faça bem, nada disso é errado. Nem mesmo é preciso deixar as revistas de lado, se não quiser. Mas é preciso analisar a qualidade da informação que se recebe. De onde vem, e a que ela vem. Sua revista feminina preferida não quer realmente ajudar a fazer de você uma leitora saudável, bonita, inteligente ou vencedora. Ela está mais interessada em te estimular a ser uma pessoa que está constantemente buscando ser saudável, bonita, inteligente, vencedora, magra e tudo o mais. Dessa forma, ela poderá continuar circulando e gerando lucro: pra editora, pros anunciantes, pra equipe de colaboradores, enfim, pra todo mundo, menos você.

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Você Tem Fome de Quê? – Produtos Alimentícios e A Perversão dos Sentidos

5 Comentários Add your own

  • 1. Dr. Alexandre Feldman  |  08/08/2011 às 21:32

    Parabéns pela excelente análise que nos faz refletir sobre como nosso pensamento é influenciado pela mídia como um todo. Não podemos nunca nos esquecer que são os anunciantes que viabilizam as revistas / TVs / etc que, por sua vez, vão formando nossa opinião através de suas capas e páginas internas!

    Este artigo torna-se ainda mais importante por ter sido escrito por uma jornalista, portanto alguém que está por dentro dos bastidores daquilo que chega a nós, público!

    Com certeza vou seguir atentamente os próximos artigos! Quando sai o próximo?

    Responder
  • 2. Eveline Pezzini  |  08/08/2011 às 21:48

    Até porque se vc comprar uma revista e conseguir tudo que eles dizem lá dentro, vc não vai mais comprar a revista e não faz sentido eles continuarem publicando rs

    Responder
  • 3. Rodrigo Brasil  |  10/08/2011 às 11:48

    O artigo está incrivelmente claro, é forte e mesmo assim completamente pertinente a nossa realidade, não só no tema que nos aparece, mas como nos faz pensar em tudo mais ao nosso redor.

    Lendo eu comecei a pensar em outra coisa; é um mundo onde não há informação, de certa forma é como uma droga que ou nos faz como que esquecer da realidade ou apenas nos entretem diversas vezes com tema nenhum. Não sei ao certo se existe um mecanismo por de trás disso, se alguem tem interesse em manipular isso, apenas parece que a sociedade e o mundo preferiu se encaminhar neste sentido, se iludindo.

    Responder
    • 4. Denise  |  10/08/2011 às 12:33

      A alienação é com certeza a brecha pela qual todo este esquema, este ciclo, encontra apoio para continuar funcionando…

      Responder
  • 5. Lilian Corrêa  |  11/08/2011 às 12:09

    Adorei a sua análise, vc sintetizou a lógica das revistas milagrosas que lotam as bancas, e nos inundam de “informações” para uma “vida melhor”. Parabéns!

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Comentários

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